Detalhe do processo de quilting sobre uma composição de retalhos de tecidos coloridos e estampados, com costuras em grelha que criam textura e unem os diferentes fragmentos. 

Quanto mais tento controlar tudo, mais reparo em cada pequeno desvio. É o paradoxo do perfeccionismo, e o trabalho com têxteis confronta-me com ele quase todos os dias.

Foi uma amiga que lhe deu nome. Estava a fazer uma série de pequenos porta-chaves em patchwork quando lhe disse, meio a brincar, que aquelas peças estavam a ser uma espécie de terapia para o meu perfeccionismo. Ela respondeu-me com esse paradoxo, e a ideia ficou comigo.

Uma linha que não passou exatamente onde imaginei. Dois fragmentos que não ficaram alinhados. Um intervalo ligeiramente maior do que o seguinte. E, no entanto, quando consigo deixar de olhar para cada uma destas coisas isoladamente, descubro muitas vezes que é aí que a superfície começa a ganhar interesse.

Isto não é abdicar do rigor. Rigor e perfeição não são a mesma coisa.

ENTRE O RIGOR E O CONTROLO

Sempre gostei de geometria, linhas, repetições e estruturas. Aparecem naturalmente no meu trabalho: nas grelhas do quilting, na forma como junto blocos de tecido, na relação entre cores, na própria construção dos objetos.

Esta procura não começou nos têxteis. Está há muito tempo na minha fotografia. Também aí procuro linhas, geometrias, repetições, relações entre formas e espaços. Talvez por isso tenha sido tão natural transportar esse olhar para o tecido. Mudou o material e mudou a forma de construir, mas continuo à procura de muitas das mesmas coisas.


Fotografia de arquitetura de Isabel Moreira com composição geométrica, linhas, candeeiro e céu azul.


E gosto de precisão. Interessa-me que uma peça seja bem construída, que os materiais façam sentido, que as proporções funcionem e que os acabamentos tenham qualidade. Para mim, isso é rigor.

O perfeccionismo começa noutro lugar: quando deixo de estar atenta ao que estou a fazer e passo a tentar impedir qualquer desvio em relação ao que tinha imaginado. O tecido é uma maneira bastante eficaz de perceber que nem tudo pode, ou deve, ser completamente controlado.


NAS FOTOGRAFIAS ESTÁ TUDO NO SÍTIO

Na vida real, as ideias do Pontos Studio começam com tecidos espalhados pelo chão ou pela mesa. Aproximo cores, afasto-as, troco uma por outra. Fotografo uma combinação e deixo-a "marinar". Horas depois, descubro que há qualquer coisa que não funciona. Ou encontro uma combinação que nunca teria escolhido à partida.

Aprendi primeiro com a fotografia e agora com o design têxtil que nem tudo o que parece um erro é realmente um erro. Às vezes é apenas uma possibilidade que ainda não tínhamos considerado.


Processo criativo no Pontos Studio com tecidos às bolinhas organizados por cores, tesoura, fita métrica e materiais de costura.

O PATCHWORK E A IMPOSSIBILIDADE DE REPETIR

O minipatchwork tornou isto ainda mais evidente. Trabalho com pequenos fragmentos de tecido que sobram de outras peças e, em vez de partir de um desenho completamente definido, parto do que tenho à minha frente.

Corto, junto, separo, volto a aproximar. Uma cor pede outra. Um fragmento demasiado pequeno obriga-me a alterar a composição. Uma união cria uma linha que não estava prevista. Quando finalmente construo e quilto a superfície, sei que seria praticamente impossível reproduzi-la da mesma forma.

Durante muito tempo, essa impossibilidade de repetir teria sido desconfortável. Hoje é uma das coisas que mais me interessam no processo. Existe estrutura, existem decisões e existe rigor na execução, mas também existe espaço para aquilo que acontece enquanto trabalho. Cada superfície guarda um pouco desse percurso.Estojo em minipatchwork do Pontos Studio, construído com pequenos fragmentos de tecido e quilting em grelha.

QUANDO A LINHA DEIXA DE OBEDECER À GRELHA

O exemplo mais literal desta mudança surgiu há pouco tempo, num desenho de quilting. Sou muito atraída por grelhas: linhas paralelas, diagonais, interseções, ritmos definidos.

Desta vez fiz o contrário. Comecei a coser sem desenhar previamente uma grelha para seguir. A linha avançava, mudava de direção, encontrava outra linha, atravessava-a e seguia para outro ponto. Algumas zonas ficaram mais densas, outras mais abertas. Havia controlo, mas não havia um percurso completamente definido.

Chamei-lhe Quilt Desvio. O desvio é precisamente aquilo que tentamos evitar quando procuramos a perfeição, e aqui tornou-se o próprio desenho.

Não deixei de tomar decisões nem de prestar atenção à construção. Deixei apenas de exigir à linha que soubesse antecipadamente onde deveria chegar.

Detalhe do Quilt Desvio na Mala Nó do Pontos Studio, com linhas azuis irregulares sobre tecido preto.

 

A IMPERFEIÇÃO TAMBÉM SE CONSTRÓI

Falar de imperfeição no trabalho artesanal pode ser perigoso. Uma peça ser feita à mão não justifica falta de cuidado. E não me interessa criar irregularidades artificiais só para que um objeto pareça mais artesanal.

Interessa-me aquilo a que gosto de chamar imperfeição controlada. Uma linha pode não coincidir exatamente com outra e continuar a fazer sentido dentro de uma composição. Os blocos de um patchwork podem ter pequenas diferenças e formar, ainda assim, uma superfície equilibrada. Duas peças construídas a partir do mesmo princípio podem não ser iguais.

Nada disto significa ausência de rigor. Significa que o processo e o material também tiveram uma palavra a dizer.

É uma das diferenças que mais me interessa explorar entre fazer um objeto à mão e tentar reproduzir a uniformidade de um processo industrial. Não quero que uma peça pareça descuidada, mas também já não quero apagar todos os vestígios de que passou pelas minhas mãos.

PERFEITAMENTE IMPERFEITO

Continuo a medir. Continuo a descoser quando alguma coisa não funciona. Continuo a testar combinações, a refazer soluções e a querer construir cada peça o melhor possível. Provavelmente continuarei sempre a reparar naquela linha que poderia estar dois milímetros mais para o lado.

Mas aprendi a fazer uma pergunta diferente antes de a corrigir. Às vezes, aquilo que estou a tentar corrigir é precisamente o que dá ritmo, tensão ou identidade à superfície.

O objetivo não é fazer coisas imperfeitas. É trabalhar com rigor suficiente para saber quando intervir, e com liberdade suficiente para perceber quando deixar o processo continuar.

E da próxima vez que reparares numa linha fora do sítio, experimenta perguntar:

precisa realmente de ser corrigida?


Isabel Moreira
Fundadora e diretora criativa do Pontos Studio